O que os resultados do Q1 2026 revelam sobre a realidade dos semicondutores de IA
Na terceira semana de abril de 2026, os resultados das três empresas centrais na cadeia de suprimentos de semicondutores de IA superaram as expectativas do mercado. A divisão de data centers da NVIDIA registrou receita de US$ 52,1 bilhões (alta de +71% em relação ao mesmo período do ano anterior e +9% em relação ao trimestre anterior), bem acima do consenso de US$ 49,8 bilhões. A margem bruta chegou a 75,8%, uma melhora de 0,6 ponto percentual em relação ao trimestre anterior, confirmando que a disciplina de preços se manteve mesmo com a transição para a geração Blackwell.
A TSMC iniciou a produção em massa do nó de 2nm (N2) no início de 2026, e a participação dos processos avançados (N3 e abaixo) na receita do Q1 chegou a 34%. A ASML entregou 18 equipamentos EUV no trimestre, sendo 3 High-NA EUV. A carteira de pedidos atingiu €405 bilhões, um novo recorde histórico. Lendo os resultados dessas três empresas em conjunto, o perfil da "sustentabilidade dos investimentos em infraestrutura de IA" e do "impacto no setor japonês de equipamentos" torna-se bastante nítido.
NVIDIA: mudança de mix de H200 para B200/GB300
A participação dos chips B200 (Blackwell) nas remessas da NVIDIA saltou de 41% no Q4 2025 para 63% no Q1 2026. O preço unitário do B200 HGX é de aproximadamente US$ 42.000 por placa, enquanto o sistema de rack GB300 NVL72 custa cerca de US$ 3,4 milhões por rack — com margem bruta cerca de 4 pontos percentuais superior à da placa avulsa, segundo o CFO. As remessas de racks GB300 no Q1 foram estimadas em 1.820 unidades, totalizando aproximadamente US$ 6,2 bilhões em valor.
O ponto crucial é a "saúde do giro de estoque". As Allocation Letters (cartas de alocação) para hyperscalers cobrem praticamente quatro trimestres futuros, e prazos de entrega até o primeiro semestre de 2027 foram apresentados a novos provedores de nuvem como CoreWeave, Lambda e Crusoe. Preocupações com excesso de estoque por acúmulo especulativo não eram visíveis, pelo menos até o Q2.
Capex dos hyperscalers: cinco empresas somando US$ 580 bilhões anuais
Consolidando o guidance de Capex para 2026: Google US$ 118 bilhões, Microsoft US$ 135 bilhões, Meta US$ 102 bilhões, AWS US$ 147 bilhões, Oracle US$ 78 bilhões — totalizando US$ 580 bilhões. Isso representa alta de +41% em relação aos US$ 410 bilhões de 2025. Desse total, a participação relacionada à infraestrutura de IA é estimada em 68% em média, aproximadamente US$ 394 bilhões.
Dignos de nota são os aportes antecipados de Oracle e Meta. A Oracle planeja destinar 63% do total ao primeiro semestre, concentrando a aquisição de GPUs com base no contrato Stargate com a OpenAI. A Meta está adquirindo NVIDIA GB300 em grande volume paralelamente ao lançamento em massa do seu chip personalizado MTIA — a chamada "estratégia de dois lados" fica cada vez mais evidente. A produção do TPU v6e da Google no N3P da TSMC está ganhando tração, e a participação de TPUs nas cargas de trabalho internas subiu para 52%.
Capacidade N2 da TSMC: estrutura de demanda > oferta
A capacidade de produção do N2 da TSMC está planejada para 80.000 wafers por mês até o fim de 2026, mas as reservas já cobrem o Q2 de 2027. A Apple ficaria com cerca de 35% para o M5/A20, a NVIDIA com aproximadamente 22% para a geração Rubin, a AMD com cerca de 12% para a família MI400, e o restante dividido entre Qualcomm, Broadcom e Google. O Rubin está previsto para amostras no segundo semestre de 2026, com produção em massa provavelmente no primeiro semestre de 2027.
A adoção do High-NA EUV foi antecipada em 3 a 4 trimestres em relação ao plano original, sendo o principal fator para o aumento da carteira de pedidos da ASML. Cada unidade custa aproximadamente US$ 380 milhões — mais que o dobro do EUV convencional —, e a previsão de entrega para 2026 é de 13 a 15 unidades. A melhoria de produtividade pela redução de etapas de DUV após 2nm é estimada como capaz de elevar a margem bruta da TSMC em 2 pontos percentuais no médio prazo.
Reação das ações e estratégias de hedge
No primeiro dia útil após os resultados, as ações reagiram assim: NVIDIA +6,8%, TSMC ADR +4,2%, ASML +3,1%. Porém, a queda da volatilidade implícita (IV) foi limitada, e o mercado de opções continua precificando "novas surpresas até o próximo resultado". O fluxo de capital para ETFs SOXX e SMH atingiu US$ 3,4 bilhões apenas na terceira semana de abril.
As estratégias de hedge que se mostraram funcionais foram: (1) long NVIDIA + puts ATM no Índice de Semicondutores da Filadélfia (SOX) para capturar alfa individual; (2) pair trade long TSMC + short Samsung ADR para apostar na participação de mercado em foundry; (3) combinação com Treasuries longos (TLT), inversamente correlacionados ao Capex dos hyperscalers. A estratégia (3) foi especialmente eficaz em meados de fevereiro, quando as preocupações com recessão voltaram à tona.
Impacto nas empresas japonesas: Renesas, Advantest, Disco, Tokyo Electron
O setor japonês de equipamentos e materiais para semicondutores é um dos maiores beneficiários desta onda. O testador SoC V93000 EXA da Advantest tornou-se essencial para as gerações Blackwell/Rubin, e os pedidos do Q1 superaram as expectativas do mercado com alta de +58% em relação ao mesmo período do ano anterior. A Disco manteve participação dominante em equipamentos de dicing/grinding relacionados ao CoWoS e revisou para cima sua previsão de receita anual.
A Tokyo Electron (TEL) penetrou nos fluxos de trabalho de 2nm com seus equipamentos de gravação Telius/Tactras, e a participação de lógica avançada na composição de receita chegou a 44%. A Screen Holdings (SPE) mantém presença nos processos de limpeza antes e depois do EUV. A Renesas tornou-se fornecedora certificada pela NVIDIA de "ICs de energia para servidores de IA" — não nos chips de IA em si —, com o segmento não-automotivo do Q1 crescendo +23%, a primeira aceleração expressiva em algum tempo.
Do ponto de vista do investidor, o subíndice de semicondutores do TOPIX avançou +14,3% no acumulado do ano, superando os +9,1% do S&P Semicondutores (SOX). Enquanto os efeitos combinados da depreciação do iene e do reshoring doméstico (TSMC em Kumamoto, Rapidus em Chitose) persistirem, essa vantagem deve se manter no segundo semestre de 2026.
Três pontos a monitorar no segundo semestre de 2026
Primeiro: o cronograma de remessas de amostras do NVIDIA Rubin. Enquanto não houver atraso além do fim do Q3 2026, a queda de preço do B200 deve ser limitada. Segundo: o rendimento do TSMC N2. Se o rendimento — atualmente estimado na faixa dos 60% — alcançará 75% no fim do segundo semestre ou no Q1 2027 determinará a curva de custos do setor inteiro. Terceiro: a divulgação do "ROI de IA" pelos hyperscalers. Assim como a Microsoft começou a divulgar o detalhamento da margem bruta do Azure AI, os investidores estão entrando em uma fase de avaliação rigorosa da "monetização em relação ao capital investido".
O único fator adverso para as empresas japonesas é o risco de valorização do iene. Para quem quiser tomar posição com hedge cambial, a cesta igualmente ponderada das três empresas de equipamentos (TEL, Advantest, Disco) continua oferecendo uma relação risco-retorno elevada.